Recent Posts

05 fevereiro 2010

Ele e Aquilo

Ele era pego de surpresa, todos os dias.


Ia dormir às vezes cedo, às vezes tarde, mas quase sempre acordava na mesma hora, no meio da madrugada, acordado por Aquilo. Houve vezes que chegou à tarde, no meio do mormaço daquele sol que insistia em tornar o quarto um microondas gigante, aparecendo junto com a réstia chata no canto da parede, transformando a luz em imagens distorcidas.

Houve inclusive aquele começo de noite, sozinho em casa, morto de fome apesar da geladeira cheia, quando ele não conseguiu se alimentar enquanto não abriu a porta do seu mundo prAquilo chegar.

Todos os dias Aquilo vinha. Infalivel, exato, certeiro, habitual.

Podia vir quieto, sem barulho, espreitando por trás da porta, amaciado pelo pisar do cachorro no chão do quarto. Aliás, aquela era a única testemunha: o cachorro. Quando vinha, ele era o único que atentava e parecia até adivinhar o que acabara de chegar – sabia e já corria pro pé do dono, manso, carinhoso, como pra ajudar a agüentar o peso dAquilo.

Podia vir grande, grave, copioso, em forma de dor no estômago e crise nervosa, alucinógeno, cheio de significados ou tão vazio que doía pelo tamanho do buraco que fazia no chão.

Mas sempre vinha, não adiantava o quê, Aquilo sempre chegava.

Esse momento desatinado, esse desassossego da alma. Essa vontade misturada com lembrança misturada com pensamento misturada com imaginação misturada com previsão misturada com essência misturada com dor misturada com tensão misturada com – misturada. Tudo misturado. Tudo presente num único momento que não era nenhuma daquelas coisas, mas era aquilo tudo. E o momento era Aquilo. E Aquilo sempre chegava.

Aquilo doía? Doía. Aquilo era bom? Era também.

Dava cócegas, mas tirava o sono. Fazia rir, mas sempre rolava uma lágrima. Animava e dava uma preguicinha também. Jogava um sorriso na cara, mas colava um ponto de preocupação na tabela da alegria.

E o que era Aquilo? Não sei. Ele também não sabia. Nem o cachorro. Ninguém sabia porque não era algo pra saber, pra se definir. Era algo pra se sentir.

E ele sentia.

Sentia tanto que corria pro computador, pra agenda, pro bloquinho de papel, pra estante de livros e fazia a única coisa que podia fazer pra acabar com a urgência que aquilo pedia: escrevia, lia... escrevia e lia... lia e escrevia... e pensava. Pensava muito.

Porque Aquilo tinha fome. Fome de letras. Talvez por isso ele gostava tanto dAquilo. Sempre sua vida fora lotada de letras e ele tinha uma intimidade com elas da qual se orgulhava. E não só com elas. Seus livros, seus escritores.

Por várias vezes ele brincava de conhecer quem ele lia. Marcava um chá com a Clarice. Esperava o Caio chegar pra conversar sobre a rave do dia anterior. Até ligava pra Ana Cristina quando estava meio deprê – discagem direta interestelar, como dizia Raul.

Quando Aquilo começou a aparecer, não deu outra: se afundou entre os livros. Comeu Morangos Mofados, andou sobre as Pedras de Calcutá, experimentou a Descoberta do Mundo, folheou o Livro do Desassossego, até sentiu que era a Hora da Estrela mas nem O Amor segundo D.H. Lawrence explicou nada.

Então desatinou a escrever... e reescrever.

Às vezes pegava pedaços do dia e montava em bricolagem. Contruía um mosaico colorindo a fome dAquilo com emoções à guisa de tesselas. Usava suas palavras, seus pensamentos mal formados, frases de efeito e diálogos corriqueiros, pedacinhos de conversa. Usava o que lia, montava diagramas, fazia listas, relembrava aquela página daquele livro, relia e depois jogava um pedaço no meio... ficava tão bonito – ele pensava. E ficava mesmo.

Não existia receita certa. Às vezes Aquilo pedia mais açúcar. Às vezes, quando Aquilo vinha mais denso, pedia mais visco ou mais sal. E ele ia juntando, adicionando, moendo, transformando.

Talvez por isso ele lidava bem com Aquilo na maioria das vezes: seu ofício era o da tentativa – ele já tinha dito isso uma vez, não? – e ele adorava reconstruir, revirar, remontar... aperfeiçoar? - porque não?

E tinha dias que nada disso dava certo. Então ele lembrava daquele pedação de sentimento que alguém tinha esquecido em algum lugar guardado, que tinha sido dividido e ele sentia que era hora de usar. Afinal, ele sabia, quem escreve tem essa vontade de dividir com o mundo. E ele aproveitava, feliz, um pedação do que ele queria ter escrito – mas não escreveu - e punha ali, em cima do que Aquilo pedia.

Era ruim? Era incerto? Não importa. O que importa é que ele leu, entendeu, encaixou na sua vida e tudo pareceu feito de novo. Tinha tudo um novo significado, ás vezes diferente do inicial. Tudo culpa dAquilo – e dele. E o crédito, era de quem? De todos, inclusive dAquilo, que não escrevia nada mas usava tudo, absorvia tudo.

E depois do que escrevia, do que colava, do que colecionava, Aquilo ia amansando. Igual ao cachorro no pé dele, sossegando com a pata em cima do pé do dono, Aquilo ia se acalmando, se derretendo, se liquefazendo.

E do líquido que era o depois dAquilo se fazia a liga. E da liga se fazia a crosta. E da crosta se fazia a força e a fibra que sustentava o coração dele.

E daí ele voltava pro seu dia, pras suas horas e pro que era seu de costume. Mais amargo, às vezes. Mais apaziguado, às vezes. Mais apaixonado, quase sempre. Mas, acima de tudo, mais certo de que era Aquilo que o fazia ser como ele é: um montão disso aqui, que ama e precisa às vezes de tudo Isso pra conseguir seguir amando...

0 comentários:

Postar um comentário