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05 agosto 2009

Medo II

Medo I

Tenho um medo imenso dessa pena absurda que sinto de mim mesmo. Dessa conformidade que me dá a mão quando saio de casa e me acompanha até a hora da volta. Desse esquecimento de tudo o que fere e rasga a superfície silenciosa da minha apatia. Dessa estátua de sal que vai se formando aos poucos, muito lentamente, mas é contínua e forte - cirstalização dos dias.
Acima de tudo, tenho medo de acordar amanhã e perceber que é esta a estação da colheita que falavam tanto quando plantaram minha muda no solo (in)fértil das possibilidades.

Para você... e só.

Para você, e só, existe sempre um ramo de flores sobre o criado mudo, sobre o livro com página marcada e ao lado dos óculos dobrados que refletem a luz do abajour sobre os lençóis amarrotados da noite dormida. Para você, um sorriso guardado, entre o descrente e o incontido, entre a realidade e o sonho como um marcador de horas e ânimos, vida que se refaz viva-morta-viva e um dia descansa. Porque teu amor me chegou, e continua chegando, naquela hora exata em que de mim já partiram as crenças em formas de velas gastas, vazias de tudo o que não era vento, quando as linhas estavam deslidas e os versos rimados ao avesso. Teu amor chegou, e continua chegando, pra encontrar pétalas quase-murchas, quase-mortas, chovidas sobre o livro branco quase-apagado de emoções.

Te espero.

24 julho 2009

Divisões Político-Emocionais

A Hungria anda isolada. Com medo e isolada. Após um breve período de auto-confiança em sua própria política e economia, quando pensou que seria para sempre uma nação cada vez mais próspera e independente, a velha e boa Hungria encontra-se novamente isolada e com medo.

Ela, que nunca sonhou ser um império... que já foi território francês, na época do pomposo Luís XIV, com seus rococós e saltos-finos, cobrindo-se de barrocagens e maneirismos... que já foi território da Germânia do magnífico Carlos Magno, humilde e subserviente, mas encantada e deslumbrada pela luz do poderoso monarca ... que chegou até a brincar de reino-duplo com a Romênia, aquela que a seus olhos parecia tão rica com seus não-me-toque de cigana, mas sempre foi e sempre será pobre como um país perdido no coração da áfrica.

A Hungria, que nunca sonhou ser império, encontra-se acuada, amedrontada e cheia de tendências ao isolacionismo.

São os novos tempos.
Uma economia em colapso após um governo que só contruia castelos e matava o povo de fome. Castelos de barro, desses que vão embora no primeiro inverno, no segundo mês de cada ano, levando as pratarias da rainha.
Uma das famílias mais nobres na corte de sua atual dinastia morreu subitamente, deixando tristes os cidadãos.
E, assim como Roma, de todos os lados os bárbaros acossam suas fronteiras, dormem com as pobres camponesas em seus campos, se entranham imperceptivelmente em seu seio. Embaixadores de países burgúndios chegaram a criar intrigas na própria sala real de Estêvão III. Um absurdo! Quase derrubam o único palácio de pedra de Budapeste com o poder chicoteador de suas línguas ferinas.

Pobre Hungria.

Onde estão seus aliados? A opulenta e soberana Rússia? O Vaticano, com sua dominação religiosa, o poder da cruz sobre a moeda? A Prússia e seu exército afiado em lanças? Onde estão?
Ocupados. A Hungria sabe. Seus próprios territórios precisam de cuidados. Questões internas, alianças novas, fortalecimento de bases, construções faraônicas em seus potentados...

Levanta, Hungria!
Não vês que enfraquecimento interno é sinal de política interna fraca? Revisa este governo. Que cortem os gastos. Que cortem os corruptos. Que cortem a cabeça das damas deslumbradas de sua corte.
Viva! Revigora estes pastos. Onde estão as frutas de teus bosques? Onde está o badalado vinho Tokkaj, que só você produz? Destrói estes jardins ornamentais de quilômetros e dá o terreno aos que precisam de terra pra plantar.
Deixa o suficiente pra que não te tornes feia, mas dispensa o que puder pra que não te tornes vazia.


Hungria,
Quero te ver rica. Quero te ver linda. Quero te ver minha.

(Não entendeu? Não precisa. A política, assim como as emoções, acredito, dificilmente são compreendidas.)

23 julho 2009

Hopeless Romantic

Hopeless Romantic
Colette Calascione
Óleo sobre Madeira
(1996)
10" x 15"

Sabendo

Não pense que eu não sei.
Eu sei. Eu sempre sei.
Às vezes eu não quero saber e me engano que não sei, mas sei.
Eu sempre sei. Lá no fundo, no fundinho, eu sei.
Se parar pra pensar e escutar, eu sei.
Dá medo, claro. E dói.
E tento pensar se há um jeito de eu estar enganado,
totalmente enganado e na verdade não saber.
Mas não tem. Nunca teve. Eu sei.
E o mais interessante é que tudo que eu sempre quis foi saber
e agora quando eu sei, às vezes seria melhor não.
Isso de saber sempre, cansa.
E não tem graça nenhuma.
Antecipa o que vai ser e faz ser já, e eu vivo tudo antes.
Tudo em trailer. Em cenas dos próximos capítulos.
Antes, antes de.
Porque eu sei.
Só não sei se é assim porque eu sei mesmo
ou porque, achando que sei, faço ser.
Sei lá.

E Sei Lá era o nome de um cachorro que eu sempre quis ter.

Pra que servem as palavras?

Tenho medo, às vezes, das palavras que me são proferidas. Antes mesmo de serem ditas, ou digitadas, algumas já me causam receio pela simples consciência de que elas serão deflagradas. Talvez porque nunca quis ter palavras como grilhões, amarras, pesos, jaulas, cadeados, cofres, cleas para encarcerar o mundo. Elas não são de borracha, nem alvejante que desbotam os sentidos, empobrecem as emoções. Tampouco não são razões matemáticas, reduzindo tudo ao comum de vários números, tábula rasa, conceito padrão, sentimento produzido em série e catalogado em prateleira de dicionário. Não pense que resumir-se-se em palavras te faz pequeno e simples, te traz ao nível do chão, te escraviza ao tempo. Não é pra isso que a palavra existe. Palavra serve para que tua mão sobre meu peito seja minha, para que teus olhos se fechem com meu sonho, para que a ponte que inventaste me atravesse, para que a torre que escalaste me alcance, para que as tuas asas me levem mais alto.


Soneto XVII

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

Pablo Neruda

22 julho 2009

Janela

Paredes com pinturas desgastadas. Pássaros silenciosos pousados nos fios elétricos. Carros barulhentos passando lá embaixo. Sol quente aquecendo a tarde. Pessoas extenuadas de calor caminham em direção a nada. Rostos baixos protegendo a vista do que é claro demais. Antenas de tv, concreto, vidros, outras janelas...

Sei das tuas mãos. Das tuas mãos em algum lugar.

O rapaz que sonha

Às vezes brinco de imaginar situações que eu gostaria muito-muito-muito que acontecessem. Construo os mais impensados momentos e eles se tornam realidade dentro do meu mundo particular: cheiros, sons, sensações, sentimentos, cores, brilhos, diálogos... Tudo. Me divirto ilustrando tudo com os mínimos detalhes.

Faço um filme de sonho. Vivo em segredo as coisas mais lindas.

Foi assim que beijei ele na noite passada, mesmo estando a quilômetros de distância. Foi assim que despedi aquela colega de trabalho falsa que me cobria de elogios e me boicotava pelas costas. Foi assim que já fiz as melhores loucuras de minha vida. Umas viraram realidade, outras não.

Vale o sonho. Sempre.

Dias tortuosos

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

(Elizabeth Bishop)

Dia calmo, chuvoso, cinza. Feito sob medida pra mim? Parece. Como este poema da Elizabeth, que caiu em minhas mãos hoje, no meio da chuva. No quarto: chá de folhas de pêssego, reminescências emocionais de decepções no final de semana que se prolongou e um gostinho de terra batida na boca.