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25 fevereiro 2010

Amor de Sertão


Tento te procurar no vento quente, no mormaço da tarde, no calor agreste das vontades, na secura das ânsias, nos beijos áridos de amor e de partida. Te procuro na umidade dos açudes, na rigidez das pedras, na poeira da estrada, pele recoberta de pó e olhos molhados de alegria. Sua presença encrustada na minha alma como lajedo em chão batido, toca, caverna, tejo procurando loca, cascavel e lagarto, onde exploro teus segredos e ilumino teus esconderijos, onde me descanso em tuas escuridões, onde rolo pelos pedregulhos, rochas, durezas, onde me encontro em suas penugens, na relva mansa por baixo e por fora de seus espinhos – me confundo e me aquieto. Amor de sertão.

05 fevereiro 2010

Meu ofício é o da tentativa.

Meu ofício é o da tentativa. Do que ainda não foi, mas pode vir a ser. Do que é e precisa continuar sendo. Do que necessita ser calibrado, medido, modificado, ilustrado, resumido, repaginado, alterado, certificado.
Minha maneira é a da busca. Eu corro atrás do impensável, persigo minhas utopias, tento transformar meus sonhos em realidade - mesmo sabendo que os sonhos nunca foram matéria pra realidade -, brinco com o inimaginável e tento catar o intangível.
Minha rotina é a da luta. Meu ringue é o cotidiano. Meus rounds vencidos viram espaços individuais e/ou momentos atemporais. Minhas vitórias são colecionadas na estante dos meus méritos e as derrotas são postas ao seu lado, pois são - ao seu modo - vitórias ainda maiores.

Ele e Aquilo

Ele era pego de surpresa, todos os dias.


Ia dormir às vezes cedo, às vezes tarde, mas quase sempre acordava na mesma hora, no meio da madrugada, acordado por Aquilo. Houve vezes que chegou à tarde, no meio do mormaço daquele sol que insistia em tornar o quarto um microondas gigante, aparecendo junto com a réstia chata no canto da parede, transformando a luz em imagens distorcidas.

Houve inclusive aquele começo de noite, sozinho em casa, morto de fome apesar da geladeira cheia, quando ele não conseguiu se alimentar enquanto não abriu a porta do seu mundo prAquilo chegar.

Todos os dias Aquilo vinha. Infalivel, exato, certeiro, habitual.

Podia vir quieto, sem barulho, espreitando por trás da porta, amaciado pelo pisar do cachorro no chão do quarto. Aliás, aquela era a única testemunha: o cachorro. Quando vinha, ele era o único que atentava e parecia até adivinhar o que acabara de chegar – sabia e já corria pro pé do dono, manso, carinhoso, como pra ajudar a agüentar o peso dAquilo.

Podia vir grande, grave, copioso, em forma de dor no estômago e crise nervosa, alucinógeno, cheio de significados ou tão vazio que doía pelo tamanho do buraco que fazia no chão.

Mas sempre vinha, não adiantava o quê, Aquilo sempre chegava.

Esse momento desatinado, esse desassossego da alma. Essa vontade misturada com lembrança misturada com pensamento misturada com imaginação misturada com previsão misturada com essência misturada com dor misturada com tensão misturada com – misturada. Tudo misturado. Tudo presente num único momento que não era nenhuma daquelas coisas, mas era aquilo tudo. E o momento era Aquilo. E Aquilo sempre chegava.

Aquilo doía? Doía. Aquilo era bom? Era também.

Dava cócegas, mas tirava o sono. Fazia rir, mas sempre rolava uma lágrima. Animava e dava uma preguicinha também. Jogava um sorriso na cara, mas colava um ponto de preocupação na tabela da alegria.

E o que era Aquilo? Não sei. Ele também não sabia. Nem o cachorro. Ninguém sabia porque não era algo pra saber, pra se definir. Era algo pra se sentir.

E ele sentia.

Sentia tanto que corria pro computador, pra agenda, pro bloquinho de papel, pra estante de livros e fazia a única coisa que podia fazer pra acabar com a urgência que aquilo pedia: escrevia, lia... escrevia e lia... lia e escrevia... e pensava. Pensava muito.

Porque Aquilo tinha fome. Fome de letras. Talvez por isso ele gostava tanto dAquilo. Sempre sua vida fora lotada de letras e ele tinha uma intimidade com elas da qual se orgulhava. E não só com elas. Seus livros, seus escritores.

Por várias vezes ele brincava de conhecer quem ele lia. Marcava um chá com a Clarice. Esperava o Caio chegar pra conversar sobre a rave do dia anterior. Até ligava pra Ana Cristina quando estava meio deprê – discagem direta interestelar, como dizia Raul.

Quando Aquilo começou a aparecer, não deu outra: se afundou entre os livros. Comeu Morangos Mofados, andou sobre as Pedras de Calcutá, experimentou a Descoberta do Mundo, folheou o Livro do Desassossego, até sentiu que era a Hora da Estrela mas nem O Amor segundo D.H. Lawrence explicou nada.

Então desatinou a escrever... e reescrever.

Às vezes pegava pedaços do dia e montava em bricolagem. Contruía um mosaico colorindo a fome dAquilo com emoções à guisa de tesselas. Usava suas palavras, seus pensamentos mal formados, frases de efeito e diálogos corriqueiros, pedacinhos de conversa. Usava o que lia, montava diagramas, fazia listas, relembrava aquela página daquele livro, relia e depois jogava um pedaço no meio... ficava tão bonito – ele pensava. E ficava mesmo.

Não existia receita certa. Às vezes Aquilo pedia mais açúcar. Às vezes, quando Aquilo vinha mais denso, pedia mais visco ou mais sal. E ele ia juntando, adicionando, moendo, transformando.

Talvez por isso ele lidava bem com Aquilo na maioria das vezes: seu ofício era o da tentativa – ele já tinha dito isso uma vez, não? – e ele adorava reconstruir, revirar, remontar... aperfeiçoar? - porque não?

E tinha dias que nada disso dava certo. Então ele lembrava daquele pedação de sentimento que alguém tinha esquecido em algum lugar guardado, que tinha sido dividido e ele sentia que era hora de usar. Afinal, ele sabia, quem escreve tem essa vontade de dividir com o mundo. E ele aproveitava, feliz, um pedação do que ele queria ter escrito – mas não escreveu - e punha ali, em cima do que Aquilo pedia.

Era ruim? Era incerto? Não importa. O que importa é que ele leu, entendeu, encaixou na sua vida e tudo pareceu feito de novo. Tinha tudo um novo significado, ás vezes diferente do inicial. Tudo culpa dAquilo – e dele. E o crédito, era de quem? De todos, inclusive dAquilo, que não escrevia nada mas usava tudo, absorvia tudo.

E depois do que escrevia, do que colava, do que colecionava, Aquilo ia amansando. Igual ao cachorro no pé dele, sossegando com a pata em cima do pé do dono, Aquilo ia se acalmando, se derretendo, se liquefazendo.

E do líquido que era o depois dAquilo se fazia a liga. E da liga se fazia a crosta. E da crosta se fazia a força e a fibra que sustentava o coração dele.

E daí ele voltava pro seu dia, pras suas horas e pro que era seu de costume. Mais amargo, às vezes. Mais apaziguado, às vezes. Mais apaixonado, quase sempre. Mas, acima de tudo, mais certo de que era Aquilo que o fazia ser como ele é: um montão disso aqui, que ama e precisa às vezes de tudo Isso pra conseguir seguir amando...

05 agosto 2009

Medo II

Medo I

Tenho um medo imenso dessa pena absurda que sinto de mim mesmo. Dessa conformidade que me dá a mão quando saio de casa e me acompanha até a hora da volta. Desse esquecimento de tudo o que fere e rasga a superfície silenciosa da minha apatia. Dessa estátua de sal que vai se formando aos poucos, muito lentamente, mas é contínua e forte - cirstalização dos dias.
Acima de tudo, tenho medo de acordar amanhã e perceber que é esta a estação da colheita que falavam tanto quando plantaram minha muda no solo (in)fértil das possibilidades.

Para você... e só.

Para você, e só, existe sempre um ramo de flores sobre o criado mudo, sobre o livro com página marcada e ao lado dos óculos dobrados que refletem a luz do abajour sobre os lençóis amarrotados da noite dormida. Para você, um sorriso guardado, entre o descrente e o incontido, entre a realidade e o sonho como um marcador de horas e ânimos, vida que se refaz viva-morta-viva e um dia descansa. Porque teu amor me chegou, e continua chegando, naquela hora exata em que de mim já partiram as crenças em formas de velas gastas, vazias de tudo o que não era vento, quando as linhas estavam deslidas e os versos rimados ao avesso. Teu amor chegou, e continua chegando, pra encontrar pétalas quase-murchas, quase-mortas, chovidas sobre o livro branco quase-apagado de emoções.

Te espero.

24 julho 2009

Divisões Político-Emocionais

A Hungria anda isolada. Com medo e isolada. Após um breve período de auto-confiança em sua própria política e economia, quando pensou que seria para sempre uma nação cada vez mais próspera e independente, a velha e boa Hungria encontra-se novamente isolada e com medo.

Ela, que nunca sonhou ser um império... que já foi território francês, na época do pomposo Luís XIV, com seus rococós e saltos-finos, cobrindo-se de barrocagens e maneirismos... que já foi território da Germânia do magnífico Carlos Magno, humilde e subserviente, mas encantada e deslumbrada pela luz do poderoso monarca ... que chegou até a brincar de reino-duplo com a Romênia, aquela que a seus olhos parecia tão rica com seus não-me-toque de cigana, mas sempre foi e sempre será pobre como um país perdido no coração da áfrica.

A Hungria, que nunca sonhou ser império, encontra-se acuada, amedrontada e cheia de tendências ao isolacionismo.

São os novos tempos.
Uma economia em colapso após um governo que só contruia castelos e matava o povo de fome. Castelos de barro, desses que vão embora no primeiro inverno, no segundo mês de cada ano, levando as pratarias da rainha.
Uma das famílias mais nobres na corte de sua atual dinastia morreu subitamente, deixando tristes os cidadãos.
E, assim como Roma, de todos os lados os bárbaros acossam suas fronteiras, dormem com as pobres camponesas em seus campos, se entranham imperceptivelmente em seu seio. Embaixadores de países burgúndios chegaram a criar intrigas na própria sala real de Estêvão III. Um absurdo! Quase derrubam o único palácio de pedra de Budapeste com o poder chicoteador de suas línguas ferinas.

Pobre Hungria.

Onde estão seus aliados? A opulenta e soberana Rússia? O Vaticano, com sua dominação religiosa, o poder da cruz sobre a moeda? A Prússia e seu exército afiado em lanças? Onde estão?
Ocupados. A Hungria sabe. Seus próprios territórios precisam de cuidados. Questões internas, alianças novas, fortalecimento de bases, construções faraônicas em seus potentados...

Levanta, Hungria!
Não vês que enfraquecimento interno é sinal de política interna fraca? Revisa este governo. Que cortem os gastos. Que cortem os corruptos. Que cortem a cabeça das damas deslumbradas de sua corte.
Viva! Revigora estes pastos. Onde estão as frutas de teus bosques? Onde está o badalado vinho Tokkaj, que só você produz? Destrói estes jardins ornamentais de quilômetros e dá o terreno aos que precisam de terra pra plantar.
Deixa o suficiente pra que não te tornes feia, mas dispensa o que puder pra que não te tornes vazia.


Hungria,
Quero te ver rica. Quero te ver linda. Quero te ver minha.

(Não entendeu? Não precisa. A política, assim como as emoções, acredito, dificilmente são compreendidas.)